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Eu, Marx e a moça do celular


Fui a um encontro de comunistas.

Tudo começou uns dias antes quando um cara me parou na entrada de um dos campi da faculdade. Começou a falar do caos no Norte da África, o que me interessou. Há mais de um mês mendigando por internet, minha fonte única de informação na Europa, pouco sei sobre o que acontece no Magreb. Ok, deixei meu número de celular com o bróder e fui pra casa.

Dois dias depois, uma moça que falava rápido demais me ligou. Enquanto imaginava quem diabos ela era, pesquei um “Nord-Africa” entre as palavras enroladas da garota. Tinha quase me esquecido daquilo. Ok, poderia ir até a Piazza dei Cavalieri às 15h. Vamos ver o que eles têm de novo para me contar.

Depois de me reunir com o pessoal, fomos para um edifício meio mocado numa das vielas próximas à praça. Logo na recepção, cartazes de Lênin, Marx e seus amigos, assim como frases de resistência ao capitalismo e incitação à luta. Tudo em vermelho, óbvio.

Antes do senhor que daria a palestra aparecer, conversei com alguns companheiros. Falamos da Itália, do Brasil, até que chegamos ao ponto principal. Política. Perguntado sobre minha preferência, achei que mentir só complicaria mais as coisas. Não tenho, disse. Já esperava as sobrancelhas arqueadas. “Como assim você não é de esquerda?” foi a pergunta em que todos pensaram, mas ninguém fez.

Mais tarde, outro rapaz quis discutir as eleições presidenciais no Brasil. Bora lá. De cara, a pergunta: “Em quem você votou?”. Encenei problemas na compreensão do idioma, mas o homem insistiu. Cogitei mentir, dizer a verdade ou me abster. Fiquei com a última. Ok, vamos mudar de assunto, propôs após - finalmente - perceber meu desconforto.

Quinze minutos depois do combinado, o palestrante chegou. Posicionou-se à mesa - vermelha - e começou a falar. Discorreu sobre a dificuldade da entrada de jovens no mercado de trabalho e a falta de mão de obra qualificada. As contradições do capitalismo. Sobre a Nord-Africa, nada mais do que comentários sobre os interesses das multinacionais daqui nos recursos naturais de lá. Pouco mais do que minhas aulas de Geopolítica do terceirão.

Quase duas horas após o início tardio da conveção, decidi que era hora de partir. Quando estava saindo do prédio, porém, percebi que a moça do celular vinha atrás de mim. Droga! Fumando, ela quis me mostrar o jornal deles (muito mal diagramado) e repetiu o mesmo discurso do homem na mesa vermelha.

Ok, ok. Entendo que o capitalismo explora o trabalho do homem, burguesia vs proletariado, mais-valia etc etc. Mas e aí, qual é a solução? Ir à luta? Luta pelo quê? Ouvi muita teoria e pouca prática. Entendi o que estava sendo discutido naquela tarde, menos o propósito de tudo aquilo.

Na despedida, a moça do celular quis saber o que eu iria fazer no dia seguinte. Inventei uma viagem a Milão e segui para casa. A luta não é para mim. Ainda mais por algo que nem sei bem o que é.


** Claro que eu comprei o jornal: 1 euro. Pergunta se eu li algum texto até o fim.



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