Um perigo que se corre ao escrever sobre cidades estrangeiras é descrevê-las todas como incríveis, espetaculares, absolutamente imperdíveis. No entanto, nem todas são assim. Pisa é um exemplo - e olha que foi a comuna toscana que me acolheu durante os seis meses de intercâmbio na Europa. Tenho noção de que a cidade de 85 mil habitantes às margens do Rio Arno não seja tão fantástica assim para um turista que tenha visitado Roma no início da semana e ainda passará por Veneza dali a dois dias. Mesmo assim, vale a pena romper a barreira invisível que divide (ou une) a praça onde está a Torre Pendente, um dos mais famosos cartões postais da Itália, e conhecer a real Pisa.
Míseros 800 metros separam a torre pendente do Rio Arno, que corta a cidade quase perfeitamente pela metade. As mesmas águas também passam pelo meio de Florença - distante apenas 80km. Um dos aspectos mais interessantes das cidades europeias é o modo como os rios fazem parte do cenário urbano. Em vez de terem sido canalizados, como aconteceu muito por aqui, i fiumi são parte do dia a dia da população: suas margens servem de pista de corrida todo final de tarde e não raramente vê-se a equipe local de remo treinando no rio. Isso sem falar das belíssimas cenas de cartão postal que ao menos este trecho do Arno proporciona.
Se o rio hoje é a alma de Pisa, séculos atrás este papel cabia ao mar. Atualmente, o centro da cidade está localizado a 14km do litoral, mas nos idos de 1100, quando Pisa era a grande potência marítima da região, o porto local (o segundo mais importante de toda a extensão de terra que 650 anos depois viria a ser a Itália) ficava exatamente onde hoje está a estação de trem San Rossore - a 300m da torre pendente.
O declínio da cidade se deu a partir do fim do século 13, devido ao grande traidor dos pisanos: Ugolino della Gherardesca. Para se ter uma ideia da péssima reputação do Signore Ugolino, Dante Alighieri - quase 300 anos depois da fatídica batalha - lhe colocou em um dos mais profundos círculos do inferno em sua mais famosa obra, A Divina Comédia. Que, no caso de Ugolino, não teve graça nenhuma.
Reza a lenda que o comandante virou casaca em um dos maiores clássicos da época: Pisa vs Gênova. Segundo consta, como consequência de sua traição, as tropas pisanas foram solenemente massacradas pelos pouco piedosos genoveses. Humilhada, a cidade passou a ser dominada pelos vizinhos do norte e jamais conseguiu retomar o poder de que outrora gozava.
Com todo esse contexto, uma visita à Piazza dei Cavalieri ("Praça dos Cavaleiros"), onde a cidade nasceu e onde os pobres coitados foram deixados para morrer, fica bem mais interessante. Enquanto a tal torre do relógio ocupa uma tímida esquina, o prédio de destaque da praça é o da Scuola Normale - que, ao contrário do que possa parecer, é reservada aos gênios. Fundado por ele mesmo, Napoleão Bonaparte, a sede pisana já rendeu três prêmios Nobel à Itália, além de diversos filósofos, políticos, matemáticos etc etc.
A maior universidade da cidade, por outro lado, aceita estudantes de QIs mais humildes. Não é exagero dizer que a Universidade de Pisa - criada no inimaginável ano de 1343 - é a instituição mais importante da região: contando com o campus da vizinha Livorno, a Unipi contabiliza impressionantes 50.086 alunos (dados de 2013). Seu estudante mais célebre foi Galileu Galilei, que décadas depois voltou à instuição para lecionar Matemática. A presença massiva da universidade confere uma vibe bem jovem à cidade que até poucos minutos atrás você só conhecia por causa da torre que está caindo (A propósito, eles já deram um jeito nisso).
Um agradável passeio ao longo do Arno numa sexta à noite e você vai deixar de ter tanta saudade de Roma ou desejar tanto chegar logo a Veneza. Pisa pode não ser o local mais incrível da Itália, mas está trabalhando para isso. No final das contas, não é que aquela cidadezinha onde fica a torre é bem bacana?


Comentários
Postar um comentário